14 dezembro 2010

Eu não ia comentar sobre isso... mas não aguentei.

Sou uma pessoa muito regrada.
Gosto de pensar que obedeço regras como quem reza o Pai-Nosso: com fé em sua eficácia, mesmo que paliativa.
Gosto de regras de uma maneira geral.
Aprecio desde as que regem os jogos de tabuleiro até as que norteiam o comportamento dos condôminos no edifício onde moro (e olha que são muitas - e chatas!). Mas, como diz minha sábia mãezinha, "no frigir dos ovos" tudo funciona muito bem, pois até as regras chatas têm lá a sua razão de ser.

E é lógico que gosto das exceções às regras, esse ventinho bom que sopra de vez em quando, para aliviar a vida certinha que levo. Acho reconfortante saber que posso abrir essa "janelinha" de vez em quando e deixar escapar uma besteirinha ou outra, uma contravenção aqui e outra acolá.

Recapitulando: gosto de regras, gosto de obedecê-las, concordo com algumas e discordo de outras, e também gosto de saber que há como burlá-las quando necessário. Ah, e gosto de criar minhas regras também: na minha casa, na organização do meu trabalho, na educação do meu filho, na disposição dos sapatos na sapateira e por aí vai... Mas se tem uma coisa que eu não suporto - perdoem o meu francês... - é a figura do(a) "Caga Regras".

Mas o que é um(a) "Caga Regras"?

Antes de dar a minha versão, que poderia não ser completa ou não ter um bom nível de erudição, dei uma busca no Google e achei, no site do Mario Prata, a seguinte definição que transcrevo aqui:
 "Cagar regras"
Significativo: dar uma de entendido, de sabichão.
Histórico:  é um personagem de uma peça de Ben Johnson que se chamava "Caga Regra". Era um terrível ditador do século XVII que engolia seus decretos não aprovados, depois defecava e mandava as fezes para o Senado.


Já no Dicionário In-Formal achei o seguinte:
s.2g. [Brasil, Nordeste] [tabuísmo] m.q. caga-regras;
GRAM pl.: caga-regras 
"Fulano está convencido que é superior a toda gente: é um caga-regra".
 
Ou seja, "Caga Regras" é aquela pessoa que se acha dona da verdade, que acha que pode dar pitaco em tudo e, pior, que quer mandar na vida alheia. Também conhecido como "pé-no-saco", entre outras alcunhas, esse espírito maligno incorpora em criaturas diversas como o síndico do seu prédio, o funcionário público e até mesmo a sua faxineira diarista.

Vou fazer um parênteses aqui: pela minha experiência, o(a) "Caga Regras" é uma pessoa de baixa autoestima, que tem um perverso prazer em invalidar as qualidades alheias, impondo normas que dificultem ou proibam a apreciação das mesmas para que suas próprias imperfeições não se evidenciem.

Pois bem, há algum tempo atrás fui vítima do assédio de uma "Caga Regras" num dos passeios dominicais do Olavo Bikers, famoso grupo de ciclistas liderado pelo simpático Olavo. Mesmo com muitos anos de pedaladas, o grupo - pasmem! - não tem regras, estatuto ou código de conduta para orientar os participantes sobre como se comportar durante os passeios. E, quer saber? Funciona às mil maravilhas e é, de longe, o meu grupo favorito para pedalar!

Mas sabe como é, né? Sempre aparece um(a) "Caga Regras" querendo dominar a área...

E foi justamente uma dessas criaturas que me abordou em plena avenida Berrini, num lindo domingo de sol, para "Cagar Regras" sobre o fato de eu estar pedalando de sandálias de salto alto. Segundo ela, isso ia "contra as regras do grupo", "me fazia destoar dos demais participantes" e estava "em desacordo com as normas dos ciclistas".

Vou ter que fazer outro parênteses aqui: eu sou uma pessoa acostumada a lidar com a inveja. Sempre tem alguém que se incomoda comigo. Ou porque eu sou grande, ou porque estou sempre arrumada, ou porque minha gargalhada é muito escandalosa, ou porque isso, aquilo e o caramba a quatro. Desde cedo minha mãe me ensinou um truque precioso: "o que quer que lhe falem de mal, deixe entrar por um ouvido e sair pelo outro".

Mas enfim, voltando à "Caga Regras" que me abordou no passeio. Eu fiz o que minha mãezinha me ensinou e deixei a criatura falando sozinha por quase um quilômetro, sem sequer me dignar a fazer "u-hum". Mas, como todo "Caga Regras", mesmo não despertando a minha atenção, ela insistiu em sua tarefa e continuou falando. Só que eu já não estava mais ao lado dela para escutar. Apressei a pedalada, tomei uma boa distância da dita cuja e voltei a pedalar, feliz da vida, com minha linda sandalinha de salto.

Cheguei a comentar esse episódio com um amigo (que sempre cito aqui no blog), o João, que se indignou com tamanha cara-de-pau. Demos umas boas risadas do absurdo e a coisa morreu ali.

Bem, isso é o que eu achava!

Domingo passado, depois do Passeio Especial de Natal do Olavo Bikers, recebi a visita de um amigo cuja inglória tarefa era me trazer uma linda cesta de regras recém cagadas por pessoas que se entitularam "organizadores do grupo Olavo Bikers".
Dentre as pérolas marrons estaria a "proibição de uso de salto alto, por colocar em risco a segurança dos demais ciclistas".
Diante da minha expressão de incredulidade (e impaciência), esse amigo ainda tentou contornar a situação, chamando a minha atenção para o peso da minha responsabilidade ao narrar minhas aventuras aqui no blog e cobrando um maior comprometimento com a classe dos ciclistas. Blá, blá, blá... Sorry.

Ouvi mais alguns descalabros educadamente, me despedi e subi para meu apartamento. Mas fiquei chateada.

Se há uma regra que eu faço questão de obedecer é "cada um cuida da sua vida". E, mesmo fazendo um rápido retrospecto, não consegui me lembrar de nenhuma situação em que o fato de estar pedalando de salto alto tenha prejudicado o meu rendimento, atrasado o grupo ou colocado em risco a minha segurança (ou, pior, a de terceiros). Como sou muito analítica, ainda fiquei remoendo as minhas memórias para ver se, em algum momento eu havia infringido alguma regra. Não por desrespeito, mas por falta de conhecimento ou atenção.

Há grupos nos quais eu pedalo e que têm regras bem definidas quanto a vestuário, itens de segurança e coisas assim. Sempre que pedalei com eles, segui à risca tudo o que era determinado. Mas no Olavo Bikers tem essa frescura? Não sei não... isso não me parece coisa dele! E eu continuava matutando...

Foi então que resolvi reler o texto que está no blog, que me seduziu pela simplicidade e despretensão, que me fez acordar cedo num domingo e pedalar até a Fnac Pinheiros em busca dessa turma que se descreve assim:

"O grupo (...) é bem sucedido exatamente pela informalidade e pela cordialidade. As regras são mínimas – se resumem, basicamente, em seguir o guia.
Nos passeios, conversamos o tempo todo. Ninguém sai com o Olavo Bikers para se preparar para o Tour de France. E no final, vamos tomar cerveja para repor as energias (...) 
Por tudo isso, por toda a informalidade do grupo, nosso slogan é: “Olavo Bikers, vai quem quer, volta quem pode”."

Está lá no blog para quem quiser ler e reler. A simplicidade do texto é tão genial que impede interpretações perniciosas.

Mas eu ainda não estava 100% sossegada, eu precisava ter certeza de que não estava causando desconforto a uma pessoa a quem admiro e por quem tenho grande carinho: o próprio Olavo. Escrevi-lhe um e-mail e, em reposta, ele me reiterou que não dita regras sobre a maneira como a pessoa vai pedalar, e me assegurou que, se alguém veio falar comigo "em nome do grupo", não foi com o consentimento dele.

Ou seja, é, meramente, um(a) "Caga Regras".

Portanto, há quem interessar possa, eu já aviso: continuarei pedalando de salto alto no Olavo Bikers sempre que me der vontade.

E, muito provavelmente, na próxima vez que alguém vier "Cagar Regras" para mim, não serei tão compassiva, muito menos chic.

Vou descer do salto, armar o barraco, chutar o balde e rodar a baiana. ;-D

Beijokas da Fernanda.

11 comentários:

Janara disse...

Cada um com seu cada um, é o que eu sempre digo. As pessoas tem essa mania de estranhar e reprimir quem foge das regras cagadas.

Paulo Rafael disse...

menina, gostei do seu texto pois, em geral, detesto grupos de pedalar cheios de regras e com guias que passam por vc gritando, querendo ser obedecidos, parece saudade do exército...

Rodrigo Gonçalves disse...

Acho que esta Caga Regras não pode usar salto alto, deve faltar um dedo no pé ou alguma coisa do gênero. Coitada... Ignora solenemente, e assuma o que vc é! De repente ela pensa que a sandália pode sair de seu pé e voar na testa de alguém e o salto furar a cabeça e atingir o cérebro, causando um coma em quem for atingido... Será? Por mais que tento entender, só me vem estas respostas... Deixa pra lá e continua como vc é, Fernanda! Afinal de contas as pessoas te amam como vc é (ou deveriam te amar assim)!!! Bjos!

Anônimo disse...

lamentável que em um grupo tão plural e interessante como o do "olavo" ainda existam pessoas com esse tipo de entendimento. João Muniz

Luciana Bacelar disse...

olhe Fernanda, não deixe de usar salto!!! como eu disse em outro coment, vc me inspira muito, e ainda quero pedalar toda chic no salto!!como vc disse, é pura inveja de quem reclamou, e que cara de pau hein, ficar falando sozinha....hahaha. fez bem de ignorar a criatura.
beijos!!

Lady Guedes disse...

Adoro quando um post gera vários comentários. Acho que tenho vocação para bater boca, hahaha!

Janara:
Bjks, darling, obrigada pela força!

Paulo:
Valeu! Abaixo o exército!

Rodrigo:
Adorei o seu bom humor! Dei muitas risadas. Bjks!

João:
<3
Beijos.

Luciana,
Sumemo! Vamos ser mulherzinhas até o fim e deixar os(as) invejosos (as) se mordendo, hahahahaha.

Anônimo disse...

Pura inveja!!
Não ligue para isso e continue enfeitando o passeio do Olavo com seu sorrisso e saltão!

abs
Cris

Lady Guedes disse...

Obrigada, Cris!
:D

Sandra e Chico disse...

Seu salto oferece riscos, sim. Machuca o ego de alguns e arranha a baixa auto-estima de outros. kkkkk
firme, mantenha-se assim, bem equilibrada -- no salto!
bjs, Chico e Sandra

Lady Guedes disse...

Hahahahaha! Estou adorando a criatividade dos comentários. Nada como ter amigos inteligentes...
Bjks pros dois!
:)

MARIO SUCENA disse...

FERNANDA,
VOCÊ É SEMPRE BEM VINDA, NÃO IMPORTA SE DE SALTO ALTO OU DE TÊNIS. QUEM QUER E VOLTA QUEM PODE.
CURTO E GROSSO!!!!
RECOMENDO A TODOS A USAREM CAPACETES E VAMOS TOMAR UMA CERVEJA GELADA PRA BATER PAPO E RELAXAR.
AGUARDAMOS VOCÊ NO PRÓXIMO SÁBADO NA USP ( E LIVRARIA!!! )E NOTAMOS SUA AUSÊNCIA SORRIDENTE , DE SALTO ALTO NESTE FINAL DE SEMANA.

BOAS FESTAS,
MARIO SUCENA